
Era uma noite de apresentações. Havia chegado ao castelo do Príncipe pouco depois que o Sol se punha e misturavam-se em mim as sensações de ansiedade e curiosidade. Mas ao adentrar as ruínas daquele velho castelo, o que me restou foi o medo. Tudo ali parecia mais escuro e mais pesado. O próprio vento que soprava do desfiladeiro tinha um toque agressivo, como se o ar não desejasse a presença de estranhos.
Quando entrei em seus aposentos, ele me esperava sentado em uma das cadeiras de uma grande mesa. Mesmo estando em ruínas, havia ainda alguns toques de luxo e esplendor, provavelmente resquícios do que antes foi uma importante e rica construção, mas que hoje não passava de um castelo assombrado habitado por criaturas dantescas, tais como dos filmes de terror de quando assistia em minha quase esquecida infância.
Aproximei dele e sentei-me em uma das cadeiras. Vestia uma manto de um tecido escuro e bem costurado que cobria bastante parte do seu corpo, mas ainda assim era possível ter idéia do todo tendo visto apenas alguns detalhes da sua pele. Eu não conseguiria dizer se a sensação era de medo ou repulsa. Talvez uma boa dose dos dois.
O cabelo talvez fosse a única parte intacta que sobrara de sua vida mortal. Longos e bonitos cabelos negros e lisos que cobriam apenas parte de seu rosto e alcançava a sua cintura. Ainda assim era possível ver suas orelhas, que sobressaiam aos cabelos com uma leve envergadura, quase que pontiagudas.
Enquanto me falava os seus olhos estavam sempre olhando diretamente para os meus. Eram pequenos e negros, como se não houvesse íris. Nos cílios acumulavam algum tipo de secreção que devia incomodá-lo, já que os esfregava com pequenos intervalos de tempo. Eu odiava todas as vezes que ele fazia aquele movimento porque eu perdia o foco do seu olhar e por algum motivo eu me sentia ameaçado quando isso acontecia.
De modo geral, seu rosto era bastante fino, e todos os outros traços tentavam acompanhar essa característica, com exceção de seus enormes caninos que sempre ficavam a mostra, mesmo quando sua boca estava fechada.
O lado esquerdo do rosto era todo tomado por algum tipo de infecção. E, por Deus, era asqueroso. Havia insetos que brigavam por pedaços de carne morta e putrefata. Apesar disso, ele não se incomodava, nem mesmo com os incansáveis zunidos das moscas varejeiras.
Aquelas mãos, aquelas malditas mãos eram sem dúvida o que mais me chamava atenção. Unhas negras e compridas que estalavam fazendo um som agudo e irritante. Às vezes era possível ver algum tipo de inseto saindo da manga do seu manto e entrando em alguma das feridas. Os dedos eram enormes, compridos e finos, se enrolando como se fossem casais de serpentes. Onde não havia feridas ou secreções, havia pequenas verrugas e pelos. A própria pele branca e morta era como um mármore castigado pelo tempo. Eu odiava toda vez que inconscientemente meus olhos se distraiam com os movimentos de sua mão, como uma dança hipnótica e repetitiva.
Quando eu finalmente pude deixar sua presença, percebi que as formas da maldição têm caminhos muito mais degradantes do que imaginara. Viver sem ver a luz do Sol ou sempre a caça de uma vida para me alimentar, até me pareceu uma tarefa mais fácil a partir daquele momento.
- Do Diário de Victor Wells -
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