
Nuvens negras obstruíam a lua fazendo a noite daquela quinta-feira mais escura. Peter tentava as pressas recolher seus trapos antes da chegada da chuva, anunciada pelo barulho ensurdecedor dos raios e pelo toque gelado dos ventos úmidos que corriam pelas ruas de Deep Valley. Em instantes, Peter enrolou tudo em uma trouxa suja e fedida; prendeu com um barbante remendado; e pendurou em suas costas curvadas.
No extremo leste de Deep Valley ficava o bairro abandonado de Heinneger que fora desabitado alguns anos atrás pelas autoridades competentes devido a problemas geológicos. Literalmente aquela parte da cidade estava afundando vale adentro. Era possível ver algumas construções completamente arruinadas em grandes fossas que se abriam na terra. Era agora um lugar que atraia toda a escória de Deep Valley – moradores de rua e pequenos grupos de traficantes e ladrões. Embora sempre que possível evitasse freqüentar Heinneger, era justamente para onde Peter havia decidido passar aquela noite de tempestade.
Após algumas doloridas horas de caminhada Peter chegou a Heinneger. Uma ladeira o levara por entre construções antigas, datadas de séculos anteriores. Por ali se encontrava pequenos prédios com janelas quebradas, portas arrancadas e paredes com símbolos referentes às gangues locais. Algumas mansões também podiam ser vistas, mas agora não passavam de mausoléus escuros e ameaçadores. A rua estava em péssimo estado, com buracos que só faziam aumentar. A iluminação era fraca em alguns pontos, e praticamente inexistente em outros. Conforme Peter adentrava o bairro, percebia que existiam grandes rachaduras que cortavam as calçadas, essas provocadas pelos problemas geológicos que afetavam aquela área. Alguns mendigos ainda circulavam por ali a procura de um abrigo, e determinado momento um carro com alguns jovens surpreendeu Peter que pensou – apenas alguns pirralhos em busca de drogas. Foi nesse cenário que Peter encontrou um lugar para passar aquela noite, uma abandonada e modesta construção ainda próxima dos limites de Heinneger. As paredes continham rachaduras, alguns cômodos sofriam com a umidade das infiltrações que torturavam o assoalho; restos de móveis definhavam ao tempo; roedores habitavam cada buraco nos cantos das paredes e no teto; instalações elétricas estavam completamente destruídas; e das torneiras a água saia barrenta, isso quando saia. Depois de uma pequena avaliação, Peter decidiu então dormir no que já foi o porão daquele lugar, que parecia ser o local mais quente e seco para se deitar. Forrou seu cobertor com alguns outros trapos que um dia já foram belos lençóis de algodão e sentou-se para comer alguns restos que achara na lixeira de um restaurante no centro de Deep Valley. Era quase impossível definir o que continha naquela asquerosa mistura, mas ao menos o cheiro não era pior do que o feijão azedo que comera na noite anterior.
De repente um pequeno zunido invadiu o recinto. A porta, pendurada apenas por uma das dobradiças, se abriu estrondosamente revelando a silueta alta e esguia de uma pessoa. Quase que imediatamente Peter se recolheu para o canto puxando seus trapos com uma das mãos e escondendo seu “lanche” com a outra. Havia um medo acrescido de desconfiança nos olhos de Peter. Por alguns instantes um silêncio invadiu o porão que foi subitamente reprimido por uma voz grave e cheia de chiados, como que a vibração da língua de uma serpente. Não quero compartilhar desse lixo com você, não precisa se afligir – disse ele. Em seguida desceu alguns degraus e continuou – Percebi que havia invadido meus aposentos e vim averiguar do que se tratava, mas acabo por encontrar você, apenas mais um miserável e repugnante ser que caminha por essas bandas. Uma dessas vidas desprezada e indesejada. A figura desceu mais alguns degraus em passos bem lentamente enquanto fazia uma breve pausa em seu discurso.
Agora já era possível ver os detalhes daquele rosto monstruoso. Uma pele cadavérica adornada de uma grande ferida que tomava quase que todo o lado direito da cabeça. Os olhos fundos eram bem vermelhos. Peter se exprimiu ainda mais contra a parede e deixou derramar uma lágrima de seus olhos. E antes que soltasse um grito de pavor, a figura se aproximou e curvou-se proliferando – Mas esta noite podemos comemorar. De fato uma grande sorte para uma pessoa como você. Sinta-se feliz porque hoje você fará parte de um grande banquete, afinal de contas a sua vida é o meu prato principal.
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